20/02/2008

Obedecer ou não obedecer, eis a questão.

A palavra obediência vem de obediente, do latim, e significa, segundo o dicionário Aurélio Buarque de Holanda: 1 – Ato ou efeito de obedecer. 2 – Hábito de, ou disposição para obedecer. 3 – Submissão à vontade de alguém; docilidade. 4 – Sujeição, dependência. 5 – Submissão extrema; vassalagem.
Para a Igreja Católica a obediência tem vários motivos de existir, três destes serão citados neste artigo:
O primeiro de todos é pela simples imitação dAquele que É o motivo dela, Igreja, existir, Jesus Cristo, a “cabeça da Igreja”, o marido fiel e amoroso, que por amor a nós e OBEDIÊNCIA a Aquele que o enviou deu sua própria vida, com docilidade, com submissão extrema, com servidão e com desejo de obedecer acima de qualquer limitação, dificuldade ou tentação a vontade de Deus Pai.
O segundo motivo é pelo que Ele mesmo exigia de seus apóstolos... servir... servir... servir... Em muitas situações os apóstolos viam-se obedecendo a ordens (leia-se orientações) de Cristo, sem saber o que iria acontecer, e o real motivo disso, ou daquilo ser feito.
O exemplo clássico de obediência radical a vontade de Deus é a de Abraão entregando seu filho único Isaac para holocausto (GN 22, 1-19), outro exemplo, sendo este já no Novo Testamento, de obediência (submissão extrema) foi na véspera da Paixão, no “lava pés”, onde Pedro por puríssima obediência “permitiu” que Seu Mestre lava-se seus pés (JO 13, 9)... como um escravo, como um servo, como um vassalo.
Que belo a humilhação de obedecer a Deus!
Fico imaginando a vergonha que Pedro deve ter pensado: “o meu Deus ajoelhado diante de mim, lavando meus pés, quem sou eu?” Mas por obediência total Cristo o lavou.
Francisco de Assis foi outro quem por obediência plena beijou o leproso que passou ao seu lado. Na sua humanidade jamais Francisco o beijaria, mas por obediência, por amor ao Deus que vivia dentro daquele irmão que estava doente, e especialmente, por OBEDIÊNCIA ao desejo de seu Criador, ele o fez, uma renúncia do “ser Francisco” para o crescimento do “Ser Divino” nele.
Que belo é ver a ovelha obediente a seu pastor!
O terceiro motivo é da ordem organizacional, a Igreja está espalhada em todo planeta, e para que isso fosse possível a Igreja necessitou organizar-se, e deu-se de forma hierárquica, conforme o desejo de Cristo ao nomear Pedro a pedra da Igreja, e os demais fossem obedientes a ele. Desta forma, o seu sucessor (o Bispo de Roma) é o Chefe de Estado do Vaticano, e o representante da fé na Igreja, é a partir do pontífice que emana as diretrizes centrais da Igreja (logicamente ele tem centenas de pessoas para auxiliar-o em suas atividades e projetos).
Desta forma o Papa é o representante da Igreja aqui na Terra, seguido pelos Cardeais, Arcebispos, Bispos, Monsenhores, Padres, todo o clero... e todos os fieis.
Um dos pontos mais importantes para que possa ser exercida a obediência na sua forma total é necessário de quatro elementos: quem ordene quem obedeça, a ordem, e a execução. Sem um destes fatores, ou um destes sendo exercidos de forma deficiente acarreta em parcial ou total desobediência.
Em outras palavras, se não existir uma “pessoa” que direcione as demais, e esta seja reconhecida por todos como a pessoa competente, adequada. Legítima para gerir, coordenar, ordenar... enfim, que por votação direta, ou indireta, ou indicação, ou hereditariedade, ou de qualquer outra forma que se possa repassar o poder de determinadas decisões fica inviável a relação de obediência entre a pessoa escolhida e as pessoas subordinadas.
É necessária, ao contrário do que muitos pensam, não a aceitação de fulano ou cicrano, mas sim o reconhecimento da ocupação hierarquicamente superior a que este exerce sobre mim, e desta forma devo ser obediente a seus direcionamentos (“Quem obedece nunca erra” não sei de quem é essa frase, mas é bem coerente).
Muitas vezes vemos conflitos envolvendo questões de falta de obediência, muitos destes por causa da falta de clareza de quem “pertence” uma determinada autoridade/autonomia para ordenar alguma conduta ou o que quer que seja fazendo com que dois coordenadores ou mais entrem em atrito seja dentro do grupo de jovens, seja nas pastorais da Paróquia, seja onde for.
Outras situações que geram conflitos são os casos de apatia, ou de conflitos de interesses e, em alguns casos, a inveja, de alguns subordinados para com seus superiores diretos levam-nos a não executarem as normas estabelecidas ou se fazem, fazem de qualquer jeito.
Lembremos-nos, a Igreja é hierárquica, e é marcada pelo serviço e pela obediência plena, quem a fundou é o MAIOR SERVIÇAL que já ouve em toda a terra.
Imitemos ao nosso criador, ao “Fundador da Igreja Católica” onde o amor ao próximo é o carisma constituinte (Mt 7, 12).
O resto... bem o resto ficou para “Marta” (Lc 10, 38-42)... cabe a nós escolhermos que “parte” queremos!

Que a paz e a certeza que vem do Espírito Santo, o Paráclito, seja constante em nossos corações serviçais, e que nós imitemos a Maria Santíssima, a serva das servas, nossa eterna Mãe e intercessora.
Rezemos pelos líderes de todas as partes, e por seus “divinos subordinados”.
Que a obediência seja vivida no amor e o Amor seja o discernimento de todas as coisas.


Rafael Braga
Deus é Capaz (22, 23 e 24 de Outubro de 2004)
Servo da CORPUS

3 comentários:

Karla disse...

Ótimo texto, Braguinha. Eis que algumas dúvidas impertinentes podem surgir com relação à obediência. Como ,por exemplo, na história de Abraão... Nossa como um Deus tão amoroso pode exigir um ato tão amoral, seja até mesmo pra pôr em prova? Obediência é então estar passivo a tudo? Antes, para compreendermos tal virtude é preciso uma experiência com a pessoa de Jesus. Quando começamos nossa caminhada, dúvidas relacionadas às questões de fé são naturais, elas podem ser encaradas como tentações ou provações para crescimento. Escolhemos, pois, a última opção. Pelos meus conhecimentos, o Antigo Testamento nos vem com uma lição mais de teologia e de fé. Ou será que Abraão ouviu mesmo uma voz dos céus dizendo para ele sacrificar seu filho? Tais fenômenos são frequentes nos escritos sagrados do Antigo. O que eu vivenciei no grupo de partilha foi aprendermos a tirar a melhor mensagem através da palavras e não considerarmos os fatos como literais, somente alguns, que são fundamentais para nossa fé (como os do Evangelho). Na mensagem tirada de tal passagem, tendo conhecido o contexto da época (na qual sacrifícios em prol do divino eram muito comuns), podemos entender a própria questão da obediência para o bem que é natural em nós e que tem Deus como princípio e fim. Obedecer não pode ser um ato fechado em si mesmo, tem de ser por amor a Deus e ao próximo. Senão, atos fundamentalistas e de abuso de poder podem perceber um terreno fértil para brotar. Os eleitos líder estão na condição de maior servo que existe, não podemos esquecer. Afinal, nosso fim é o Amor, o qual os membros do GSV descobriram que é um ser, este em português é chamado "Deus".
O comentário pode ter sido em alguns pontos repetitivo, foi para um realce, pois o tema é de extrema importância. Animemo-nos com os exemplos de obediência e humildade da Mãezinha e dos Santos para que possamos viver em plenitude o Amor. Somos imagem e semelhança Dele.

Karla, Tudo Posso, 10, 11 e 12 de junho de 2005.

Marcel disse...

Belo texto, Rafael.

Deborah Macêdo disse...

esse texto relamente merece ser lindo por inteiro, na minha humilde opinião :)
Que bom que Papai do Céu providenciou alguém como o Braguinha pro gsv.
Paz e bem.